domingo, 23 de outubro de 2011

Coisa de palhaço


         O termo “Máscara”- Persona, na Grécia Antiga - já foi utilizado por sociólogos, poetas e, constantemente, aparece em conversas do cotidiano quando se quer falar de algo que possibilita a quem usa ser aquilo que não se é na realidade. Nas críticas à sociedade e ao ser humano especificamente, essa característica de encarnar um personagem como forma de esconder um pensamento, uma atitude, a sexualidade ou de dissimular um outro, alheio a si próprio, aparece como um dos principais defeitos. Há os que dizem que, pelo privilégio da racionalidade, somos os únicos animais capazes de fingir.
            No entanto, nem sempre é ruim utilizar de uma figura, de um personagem, para representar algo que não somos, ou que não podemos ser em tempo integral. O palhaço, por exemplo, se veste de outro para fazer rir a quem possa ouvi-lo. É por acreditar na magia da máscara, por vê-la pelo seu lado mais concreto e positivo, que, sempre que aparecem oportunidades, incorporo a Palhaça Alfinete.
            Roupa colorida, sapato comprido, peruca, nariz vermelho, violão nas costas e um número infinito de piadas, de músicas engraçadas e tombos planejados compõem o figurino e a alma da minha eu-palhaça.
            Durante as horas em que deixo de ser eu para me tornar a Alfinete, posso usar e abusar do humor e do ridículo que é utilizar a nós mesmos para provocar risadas. Mas não há nada mais gratificante que ver uma criança soltar uma daquelas gargalhadas gostosas ou sentir que fizemos um velhinho se lembrar de que ainda é tempo de sorrir, ou melhor, que sempre é tempo de sorrir.
            Mas quando a diversão acaba e eu deixo minha cabeleira rosa num canto do armário, volto a ser eu, com toda a responsabilidade que é ser a gente mesmo. Até que, em uma dessas palhaçadas, fui felizmente condenada a ser sempre palhaça.
            Estava quase indo embora da creche em que a Alfinete se apresentou naquele dia, quando uma das crianças veio correndo para perto de mim. Ela perguntou, puxando a minha roupa, apressada: – Ei, palhaço, qual é o seu nome verdadeiro? – Como eu já estava cansada de tantas brincadeiras, abri mão da magia de um nome fantástico e, sem pensar muito, respondi, rapidamente: – Jamylle! –  A menininha soltou a maior risada da noite, colocou a mãozinha na cintura, em tom de reprovação e disse, quase não agüentando falar de tanto que ria: – Não! Eu quero saber o seu nome DE VERDADE! – Tentei explicar que aquele era mesmo o meu nome, mas quanto mais eu falava, mais a pequena ria. Por fim, desisti de convencer a menininha e exclamei: – Tá bom, você venceu! Vou contar o meu nome DE VERDADE, mas não espalha por aí, certo? – Ela fez que sim com a cabeça enquanto eu dizia: ­– Meu nome é Gertrudes! – Agora sim! Disse ela, satisfeita, e saiu pulando para perto das outras crianças.
            Naquele dia, entendi que já que meu verdadeiro nome foi a grande piada da vez, eu não dependia mais dos adereços para tentar fazer os outros rirem. Utilizando do nome “Jamylle”, tomei então como missão alegrar a quem quer que esteja próximo a mim. Sem mais máscaras, continuarei sendo palhaça pela vida afora. 

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