sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Hay que viajar!

Não tenho filhos. Se os tivesse, escreveria uma carta mais ou menos como a de Aristóteles para Nicômaco, mas de um jeitinho menos frio-carinhoso-filosófico. Ou, para ser mais moderna, poderia fazer como Ted, de How I Met, e gravar um seriado: “a história de hoje, Kids...”. Tudo isso para contar sobre o tempo que passei na Argentina e as conclusões que esse intercâmbio-que-não-foi-intercâmbio trouxe até mim. Seria mais ou menos assim:

'Se algum dia aparecer uma oportunidade, escolha um país e coloque na cabeça que você vai morar nele por algum tempo. Passe meses a fio pensando nesse tal país, mas não pesquise muito, que é pra não tirar a graça quando você estiver lá, com os pezinhos no chão. Despeça dos seus amigos, dos seus pais, da sua cidade, da sua rotina. Vão cair umas lagriminhas (ou não), mas elas passam logo, logo. Acredite! Chegue ao aeroporto sem saber falar uma frase completa do idioma nativo desse país e passe muitos apertos e vergonha por isso. No fim das contas, depois do desespero inicial de não entender nada, você terá boas histórias e um desafio enorme pela frente.

More com quinze pessoas totalmente desconhecidas. Aprenda a dividir uma casa, a esperar a sua hora de usar a cozinha, a não dormir quando alguém resolveu juntar os amigos da faculdade e fazer um auê. Aprenda que todo mundo tem seu espaço e que é preciso respeitar o dos outros. Perceba que viver com pessoas da mesma idade pode ser uma das melhores coisas da sua vida: há sempre alguém disponível pruma cerveja, um jogo de adivinhações e um papo político. Você será uma pessoa melhor depois disso e terá amigos e estadia em um montão de países.

Cozinhe sua própria comida. Não uma ou duas vezes por semana, mas todos os dias. Depois de um tempo, você pegará gosto pela coisa. Literalmente. Comece a se preocupar com a sua própria saúde, afinal, quando estamos longe, não tem ninguém pra vigiar e cuidar da gente. Por isso, troque hambúrgueres por frutas, macarrão por verduras e, cervejas, bem, as cervejas continuam sempre lá. Firmes, fortes e geladinhas.

Conheça uma universidade totalmente diferente da sua, faça um estágio, comece um curso novo, trabalhe de graça, só por trabalhar. Conheça uma cultura nova. Perceba que cada lugar tem seus encantos, seus problemas e peculiaridades. Entenda que, por mais que você se encante por tudo que acabou de conhecer, nunca achará um lugar mais perfeito que o seu próprio país.

Faça amigos. Prove um drink novo e fique mais alegrinho que o normal. Fique feliz só de ver seus pais pela webcam. Namore um estrangeiro. Amadureça estilo JK: 5 anos em 7 meses. Aprenda que é preciso valorizar o desejo dos outros mas, entenda que, em alguns momentos, o mais difícil e importante é seguir a sua própria vontade. Por isso, aprenda a dizer não. E aprenda a dizer sim também.

Se algum dia aparecer uma oportunidade, more em outro país. E outro. E outro. E outro mais. O mundo fica tão grande quando saímos de casa, que nos tornamos menores, mais humildes e conscientes de que há mais cenários depois do nosso próprio quintal.

Se algum dia aparecer uma oportunidade, viaje. Se não aparecer, invente uma.
Mas não se esqueça: hay que viajar!'

sexta-feira, 19 de abril de 2013

O dia em que minha mãe descobriu o computador


O computador surgiu no início do século XX, mas, para a minha mãe, ele só nasceu – com suas janelas, fios e mouses – há uma semana. E-mail, facebook, Word, Skype e photoshop: essas palavras nem sequer faziam parte do vocabulário de Dona Marilene, que, no auge dos seus 50 e tantos, via o computador da minha casa como um monstro impossível de domar.



Eis que um dia a saudade apertou e espantou o seu medo da tecnologia – ou da modernidade, como dizem os bons mineiros. Tecla por tecla, minha mãe aprendeu a ligar a CPU, conectar a internet e navegar por aí. Ela, que tem quarenta e alguns anos de experiência como mestre dos mais humildes, arranjou um professor, arregaçou as mangas e, todos os dias, faz o seu dever de casa.

A uma semana atrás, o facebook nem imaginava que, entre as montanhas de Minas, numa casa com varanda e passarinhos na janela, havia uma Marilene Mol. Hoje, a carinha dela já está estampada entre os rostos virtuais, colorindo a internet com sua bondade e divertindo os meus amigos com as mensagens na minha timeline. “Já, hoje eu descobri o Alt Gr e o Shift”, conta, pelo skype, toda feliz.

Há dias em que o otimismo escapa dos nossos olhos – em manhãs de pães com manteiga e muito, muito sangue nos jornais, como cantou Vinicius – e a vontade de mudar o mundo parece uma grande bobagem, uma “síndrome de Dom Quixote”, como costumo ouvir por aí... Que ideia absurdamente romântica e utópica achar que o amor pode transformar as coisas, não é? Pois bem. Nesses dias, lembro da carinha da minha mãe me olhando pela webcam (que ela mesma escolheu na loja), encantada com o universo novo que se abriu pra ela, e volto a acreditar nos sentimentos que transformam. 

Bastou um primeiro passo e, agora, Dona Marilene caminha, sozinha, por um mundo cheio de novidades: surpresas dessas que vêm fora de hora... Conhecer amigos, digitar provas da escola, curtir a página do Robertão no facebook, ver as fotografias dos moleques da minha irmã no e-mail: nada disso moveu a minha mãe. Ela foi movida única e exclusivamente pelo amor.

“Quem tem mãe, não tem medo”, bem disse o Henfil. Acrescento: Quem tem mãe, como a minha, não tem medo de mudar o mundo - pelo amor. Tudo se tornou mais fácil, mais crível e melhor desde o dia em que minha mãe descobriu o computador.