sexta-feira, 10 de abril de 2015

Somos todos Manuel

O meu nacionalismo corre nas veias: rápido, sincero, pulsante. Hoje, ouvi no rádio um cantor negar o próprio português e então corri para o meu armário e vesti a minha capa verde amarela: aquela que escondi no último sete a um. Admirei o meu reflexo no espelho, tão made in Brazil, e corri para o mundo obedecendo à vontade de provar que não sou menos culto que um europeu. O inglês é universal, mas eu sou dono das minhas escolhas. Saí, indignado. O meu grito percorreu ruas, favelas, Planalto Central. Alçou vôo. Reuni multidões a favor da minha causa nacionalista. Lutei.

Na Câmara Federal, o projeto de lei 4330 está escrito em português. No entanto, o texto não causou em mim tanta indignação quanto a declaração daquele cantor que ouvi no rádio. E daí se esses quatro números representam um retrocesso na causa trabalhista nacional ou se o salário de 18 milhões de brasileiros poderá diminuir significativamente? Nesse texto, ninguém critica a minha camiseta apertada, o meu gosto por futebol ou o meu relógio branco. Nesse texto – que, repito, está escrito em português –, ninguém ofendeu minha pátria amada Brasil. E, mais importante: nesse texto, NINGUÉM duvidou da minha inteligência ou poder de escolha.

O meu nacionalismo corre nas veias: rápido, sincero, pulsante. Dona Terezinha (vocês ainda se lembram dela?) mudou-se para o Piauí depois de ver o seu Eduardo ser atingido por um PM no Complexo do Alemão. Dona Terezinha fala português e também faz parte da “turma simplória” sobre a qual falou o cantor do rádio. Pobre Dona Terezinha pobre. Será que ela também se indignou por não poder ir ao show de jazz na Europa? Não importa. Eu me indignei por ela.

Foto: Poracaso.com
Muitos adolescentes se enfezaram com o discurso do cantor do rádio. Ora, eles são apenas adolescentes, ouvindo música e deixando o cabelo crescer por cima das ideias. Por que não podem viajar pra Europa e pedir um Manuel? Ouvi dizer que querem reduzir a maioridade penal para 16 anos. Disseram isso em alto e bom português. E daí? Contanto que os fãs daquele cantor que apareceu no rádio possam matar a saudade do Brasil quando estiverem em Paris, tudo bem.  

Às vezes, a minha capa verde e amarela me aperta um pouco. Esse cheiro de naftalina impregnado no seu tecido me dá dor de cabeça. Mas um filho teu não foge à luta e, então, cá estou, hino nacional a punho, com muito orgulho, com muito amoooooor. Vou guardar a minha capa dentro de alguns dias, logo que o auê passar. Mas, oh: se aparecer qualquer coisa pela qual precise me indignar, me chamem! Coloco a capa de volta, brasilindo que sou, e saio por aí cantando Imagine: I’m a dreamer...  


domingo, 5 de abril de 2015

O menino Jesus

Hoje é Páscoa: dia da Ressurreição. Para os católicos, renasce Jesus. Dona Terezinha, lá do Complexo, também é Jesus: com documento passado e assinado em cartório. Dona Terezinha, lá do Complexo, também perdeu o seu menino numa quase sexta-feira da paixão. Virão Natais, virão novas Páscoas, virão quartas de cinzas e quaresmas, mas o menino da Dona Terezinha não estará com ela depois desse domingo.

Hoje é Páscoa: dia de comprar chocolates e presentear as crianças. O menino da Dona Terezinha também era criança, também gostava de chocolates e quem sabe até já acreditou em coelhos de páscoa. Será que Dona Terezinha, doméstica, mãe, além de economizar os 200 reais do curso de informática, teria comprado um ovo de chocolate e escondido na sua casa pequena, lá no Complexo?

ReproduçãoFacebook
Hoje é Páscoa. No Brasil inteiro, há gente chorando ao assistir encenações religiosas. Dona Terezinha, a mãe do Eduardo, que mora lá no Complexo, também chora. Mas o choro da Dona Terezinha não termina quando acaba o ato e chegam os aplausos. Dona Terezinha não tem nada o que aplaudir. Não há encenação alguma em seu drama.

Hoje é Páscoa. Amanhã é segunda-feira de uma semana qualquer. Todos se esquecerão do domingo, dos seus bacalhaus e suas missas. Para a Dona Terezinha, mãe do menino Dudu, essa é a primeira segunda-feira de todas que virão: com um “eu te amo” faltando no seu whatsapp e uma lembrança triste bem em frente ao seu portão.

Em todos os anos, repetem-se a Páscoa, a Sexta-Feira e os sábados de aleluia. No Complexo, que é a casa do menino Dudu e sua mãe, Dona Terezinha, repetem-se, todos os dias, uma guerra silenciosa em que, muitas vezes, só há um lado na briga: armado, apoderado, cruel.

Façamos encenações nas ruas de pedra. Façamos teatros e choremos nossas cruzes. Não vamos deixar que se esqueça o sofrimento dele, que morreu por muitos. Passemos adiante: o menino Dudu não está nessa Páscoa, nem estará nas outras que virão. Que toquem os sinos de todas as igrejas e espalhem o recado: não há mais o menino, que também era Jesus, mas há muitos Judas e muitíssimas pessoas que apenas lavam as suas (nossas) mãos.

sexta-feira, 20 de março de 2015

Onde moram os infelizes?

Felicidade. Para a Wikipédia, um estado durável de plenitude e satisfação. Para Vinicius e Tom, uma coisa louca e, claro, delicada também. Para o filósofo Demócrito, ética. Para o meu sobrinho de dois anos, chocolate e uma fantasia de algum super herói. Já para o meu avô de 92, um café forte e um cochilo depois do almoço. O Guimarães disse que ela se acha em horinhas de descuido. Enquanto, para o Drummond, ela é o caminho – com pedras ou não.

Talvez o pai de todos os clichês seja o que diz: a felicidade está nas coisas simples. Sorriso banguelo de criança. Bolha de sabão. Domingo de chuva. Sábado de sol. Abraço de mãe. Grilo verde na janela. Cheiro de pipoca. Segunda-feira de feriado. E por aí vamos. Mas, se é assim tão fácil encontrar a tal felicidade, por que existe tanta gente infeliz nesse mundão?

No Brasil, 7,2 milhões de pessoas passam fome. E não. Não aquela fome que a gente sente entre o almoço e o jantar. Fome mesmo. Dessas que até dói o coração só de imaginar. Essas pessoas passam dias inteiros sem comer absolutamente nada pelo simples e único fato de não terem condições financeiras. Elas vêem muitos sorrisos banguelos de criança, muitas bolhas de sabão que fogem dos condomínios, muitos sábados de sol e grilos verdes. O que mais querem?

Hoje, dia Internacional da Felicidade, pensei em levar uma fantasia do homem aranha pra cada uma das crianças que fazem parte desses 7,2 milhões de pessoas. Cheguei a colocar no micro-ondas, 7,2 milhões de pacotes de pipocas e distribuir o cheirinho bom pra cada uma delas. Levei o café do meu avô e pedi à minha mãe – que tem o melhor abraço que conheço – pra ir lá e abraçar todo mundo. Nada adiantou: nem grilo verde, nem feriado.

Para o Ricardo Alves, lá do interior de Minas, felicidade é ter um amor, a mãe por perto, amigos e um pouquinho de dinheiro que, convenhamos, não faz mal a ninguém. Já para a Sarah Gonçalves, ser feliz é ter liberdade: de amar, de ir e vir, de viver. O Juninho Moreira, entre uma piada e outra, diz que feliz mesmo é quem tem dinheiro e mulher. A Isabela Azi acredita que o que faz feliz é a família, a realização profissional e o amor. A Samylla Mol acredita que o segredo está no entusiasmo: sentir-se pulsar. E a Maisa dos Anjos fica feliz com internet, comida e cama, por que não?

Não há duvidas de que os 7,2 milhões de brasileiros também desejam amor, amigos, a mãe por perto, liberdade de ir, vir e viver, realização profissional, entusiasmo, cama e internet. No entanto, para essas pessoas, o clichê é ainda mais comum: eles, antes de tudo, querem ter o que comer. E talvez isso já seja ser feliz.

Hoje é o Dia Internacional da Felicidade. Pensei em escrever um texto desses cheios de poesia, mas minhas palavras ainda não podem se render ao lirismo e suas métricas complicadas. Minhas palavras são tão simples quanto esses brasileiros. Seja feliz! Mas não se esqueça que outros 7,2 milhões de gente como a gente não o são. 

terça-feira, 17 de março de 2015

¿Contra quién protesta Brasil? *

El 15 de marzo de 1964 se iniciaba el régimen militar brasileño. A partir de esa fecha, el país vivió el período más oscuro de su historia: fueron 21 años de dictadura. El 15 de marzo de 2015, 51 años después, Brasil asistió a una marcha que llevó a millones de personas a las calles. Increíblemente, una gran parte de esas personas pedía, justamente, el retorno de los militares al poder.
Las protestas ocurridas en las principales ciudades brasileñas el último domingo evidencian una insatisfacción con el gobierno de Dilma Rousseff (PT), re-electa presidente del país en octubre de 2014. Sin embargo, para comprender el movimiento de forma efectiva, es necesario tener en cuenta una serie de factores, que casi nunca están citados por la gran prensa brasileña e internacional:
A. El perfil de los manifestantes: el gobierno de Rousseff, así como de su predecesor y también petista Luis Inácio Lula da Silva, es el responsable por la creación y mantenimiento de medidas de combate a la desigualdad social en Brasil. A través de las becas y programas de reparto de ganancias, el gobierno logró disminuir significativamente la pobreza, permitiendo, así, que millones de personas tengan, hoy, oportunidades antes restrictas a una parcela mínima de la población. No es secreto que ese avance de la llamada "nueva clase media" incomoda a millares de brasileños que, constantemente, en sus perfiles de las redes sociales, se quejan de que "ahora todos pueden viajar en avión", "cualquiera tiene la posibilidad de frecuentar la universidad", o, el dicho más común, "es imposible encontrar gente para trabajar como doméstica, ya que ahora todos ganan plata del gobierno". Es evidente que la motivación de las últimas protestas no es solamente esa insatisfacción en relación a los cambios sociales. Sin embargo, es importantísimo saber que el perfil predominante de los manifestantes es, sí, el del hombre blanco y rico.
B. La actuación de la prensa: Mucho se sabe de que los dueños de los principales medios de comunicación de masa en Brasil son contrarios a los gobiernos de Lula y Dilma. Sin embargo, después de las últimas elecciones, esa posición se tornó aún más evidente. Luego de que empezaron los rumores sobre las protestas del 15 de marzo, la prensa brasileña se transformó la "agenda del movimiento", divulgando diariamente la programación de las protestas e, implícitamente o no, invitando a las personas para que participen de las acciones. Es fundamental entender también la constante tentativa de los medios brasileños de crear una especie de pánico general, tratando la información de una forma completamente imparcial, que lleva a creer que Brasil vive los peores momentos de su historia: política y económica. Lo que, seguramente, está lejos de ser verdad.
Con carteles en inglés y alemán, manifestantes piden ´intervención militar´
C. Rousseff y PT: El odio al Partido de los Trabajadores (PT) estuvo presente en la mayoría de las pancartas divulgadas en la marcha del domingo, que constantemente asociaban el partido con la corrupción en el país. La corrupción en Brasil – así como en otras naciones latinoamericanas – es real y preocupante. Pero lo que muchos parecen desconocer es que ese problema existe desde el principio de la historia del país: se profundizó durante el gobierno militar y siguió después en los años de neoliberalismo y del petismo. Sin embargo, fue en el gobierno Lula, en lo llamado "mensalão", que pasaron a investigar el tema. Además, el juzgamiento de los políticos denunciados de "corruptos" con sustento, ocurrió por primera vez en Brasil durante el primer mandato de Rousseff. Otro factor interesante, por así decir, es la tentativa de aproximar el PT al comunismo. En las protestas, fueron comunes frases que decían: "Brasil no va a ser una nueva Cuba", "Fuera comunismo!", "SOS intervención militar". Relacionar el Partido de los Trabajadores al comunismo es mostrar una ignorancia en relación al partido y, principalmente, al comunismo en sí mismo.
D. El avance fundamentalista en Brasil: El movimiento ocurrido en el último domingo tiene por detrás varias posibles figuras protagonistas: una empresa petrolera norteamericana; el candidato derrotado Aécio Neves; la principal red televisiva brasileña, la Globo. Sin embargo, quién protocoló el pedido de impeachment contra la presidenta Dilma es el diputado Jair Bolsonaro (PP). Bolsonaro, es uno de los políticos más votados en las últimas elecciones, es la cara del fundamentalismo religioso en Brasil. Declaradamente homofóbico y conservador, el diputado va en contra los derechos humanos constantemente. Evangélico, es conocido por defender el retorno del régimen militar y por creer en la tortura como práctica legitima. Es enorme el gran número de personas que siguen a Bolsonaro. En la protesta, estas salieron con cartones de "No al aborto legal", "No a la unión homoafectiva", entre otras declaraciones que parecen no pertenecer al siglo XXI.
Las protestas en Brasil no son un fenómeno aislado. Al contrario, el hecho parece hacer parte de las movidas desestabilizadoras que hay actualmente en América Latina. Sería de mucha coincidencia que los brasileños (o, por lo menos, 1% de los brasileños) resuelvan salir a la calle al mismo tiempo en que el gobierno de Nicolás Maduro, en Venezuela, recibe duras declaraciones de los Estados Unidos o que el gobierno de Cristina Kirchner, en Argentina, es acusado de encubrir a los responsables de acciones terroristas ocurridas hace más de 20 años atrás.
No es nada irracional creer que la América Latina pasa por un momento de fortalecimiento de la extrema derecha, que intenta retomar el poder con el apoyo norteamericano. No es fantasía. Tampoco es la primera vez que eso ocurre. Lo que sí parece increíble es que un sector social salga a marchar por voluntad propia, pidiendo el retorno de los militares para mantener la democracia. "El discurso del odio", ¿qué lo podrá apagar?

* Texto publicado no jornal argentino ReportePlatense em março de 2015.

sábado, 14 de março de 2015

A revolta das panelas


Seus gritos ecoam pelos condomínios. O soar de suas panelas acostumadas ao sossego de domingos fartos confunde o silêncio rigoroso de todas as noites.  Os palavrões que saem de suas bocas tão profundamente bem educadas parecem contradizer a finesse da classe. A chuva de nacionalismos que jorra de quem nunca acreditou no país denuncia que, ali, dentro daqueles muros, pouco se sabe sobre o que faz o Brasil. Contraditoriamente, eles não economizam nas bandeiras e nas camisas da seleção, ufanistas desde criancinhas.  

A mídia bate-panelas, tão acostumada a enquadrar a realidade do seu próprio modo vesgo, faz com que eles acreditem que são a maioria; que seus condomínios são as ruas de todo o país; que a sua crença não só é a mais certa, mas a única possível; que eles devem ser os heróis de um país à beira do caos. Caos. Para evitar esse perigo iminente, eles sairão a marchar, como um exército de escolhidos. Afinal, eles têm a sabedoria. E sempre a tiveram, desde os tempos de eleição.

Ao badalarem os sinos, os portões de cada condomínio fechado se abrirão. Cada mão segurará democraticamente o seu cartaz escrito em inglês. Cada coração verdeamarelindo declarará seu ódio pelo vermelho assustador. Cada consciência desfilará tranqüila pela cidadania exercida e pelo sapato sujo com barro de rua pela primeira vez. Levarão água e barra de cereais. Light.

Afinal, o que eles querem? Defender uma democracia oligárquica que deslegitima toda uma eleição? Garantir que sejamos todos iguais, mas uns caetanamente mais iguais que os outros? Acabar com uma corrupção que, embora real e visível, só começou a ser investigada de fato nos anos vermelhos do Brasil? Ou será que, de repente, defender as empresas nacionais virou página importante na bíblia que alimenta essa fé, tão certa e direita?

Afinal, pelas barbas de Fidel, o que eles querem? Impedir que o Brasil se torne Cuba e que, de repente, todos comecem a fumar os charutos que eles se presenteiam no Natal? Acabar com essa história de bolsa esmola disso e daquilo, para que o brasileiro finalmente aprenda a pescar sua própria sardinha? Ou será que eles estão com medo do golpe comunista que o fantasma do Jango trouxe na última sexta-feira 13?    

Eles. Nós, não. Desse lado, o que bate o coração (valente, por que não?), o ódio fala mais baixo, quase em sussurros. Escolhemos nosso nome cinco meses atrás. E escolher é se mostrar, é dar a cara a tapa, é defender uma utopia (ou uma vontade, que seja). Há, de fato, os que escolhem por interesses mesquinhos, individuais, hipócritas. Mas há, sobretudo, os que escolhem porque acreditam, porque esperam, porque querem fazer parte da construção de uma história melhor. Há os que escolhem porque sonham, com os pés no chão e as panelas no fogo, vigilantes. E sonhar, ao contrário do que eles imaginam, não é deixar de criticar. Mas é, sim, saber por que e como fazê-lo.  

Que me perdoe cada brasileiro que está tirando as panelas do armário pela primeira vez. Defendam seus ídolos fanáticos, apontem seus dedos cheios de razão, clamem pelos militares e chorem por toda a nossa corrupção, tão novata. Amanhã, a rua é de vocês. Nos outros 364 dias do ano, ela é nossa. Povo que somos. 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Después del Lago Titicaca: una historia de fronteras*

Documentos, equipaje, inspecciones y permisos: la burocracia tal vez sea el talón de Aquiles de todo viaje. Para quien viaja por tierra en Latinoamérica el gran talón es el momento de cruzar las fronteras entre los países y pasar por la revisión inmigración. Ese tipo de viaje, por ser económicamente más accesible, permite que un gran número de personas, de clases sociales y culturas diversas, circulen entre los países latinos todos los días. Todo eso genera una contradicción estructural: de un lado, los tratados de cooperación entre naciones latinas que permiten la libre circulación de personas en países sudamericanos; por otro, la actuación del Estado, que intensifica la vigilancia en las fronteras con la intención de combatir el tráfico de drogas y de otras mercaderías ilegales.
La oficina boliviana de migración, oficialmente llamada de Control Desaguadero en Bolivia, es una de las más polémicas. El Control es parte de la ruta Perú – Bolivia, tradicional destino de quien viaja por tierra en la América Latina, y aparece constantemente en blogs de diarios de turistas como escenario de historias de maltratos a viajeros y de acciones de corrupción. El edificio, antiguo y despintado, no es grande, pero son decenas de personas las que se acomodan allí, a la espera de recibir la autorización de entrada en el país. Los funcionarios no son muchos y, por eso, las colas son casi siempre grandes y lentas. Se hacen al aire libre y no son raras las veces en que los viajeros tienen que esperar que los atiendan bajo la lluvia o sol fuerte.
Benjamín Guevara, Sebastián de Paz y Marcelo Rueda, tres jóvenes deportistas colombianos de veinticinco años, estuvieron en la oficina boliviana en abril de 2014, durante el viaje desde Colombia hacia Brasil con destino al Mundial de fútbol. Fueron sorprendidos por el tratamiento hostil en la frontera y conocieron de cerca algunos de los problemas en límite boliviano.
- ¡Colombianos, saquen la cocaína de la mochila! ¡Ah, no, quiero decir, saquen sus COSAS de la mochila y acuéstense en el piso!
El oficial revisó cada pieza de ropa y cada objeto que componía el equipaje de los tres chicos. Sin embargo, eso no pareció ser suficiente.

-Se dieron cuenta de nuestro acento colombiano y luego cambiaron el trato con nosotros. Era una situación embarazosa: estar en el piso como criminales.
-Ahora muéstrenme que trajeron plata. No se puede entrar en Bolivia con menos de mil dólares. Necesito ver los billetes y saber que ustedes no planean hacer nada ilegal en el país.
Después de mostrar el dinero ahorrado durante tres años de trabajo y, por fin, obtener el permiso de entrada en Bolivia, era hora de comprar los pasajes y seguir hacía La Paz por la ruta nacional. Tomaron un taxi y, mientras seguían, el camino daba la sensación de ser un gran círculo repetitivo y desierto. El auto frenó repentinamente, dibujando de negro el asfalto. El taxista desató su cinturón de seguridad y, sin mirar para atrás, sacó un revólver de la cintura para volver a guardarlo pronto.
-Soy policía y estoy en una búsqueda por traficantes de drogas – dijo y mostró un carnet arrugado y envejecido, con el símbolo de la Policía Federal de Bolivia – Necesito revisar el equipaje.
Con las bolsas apiladas en el asiento delantero, el conductor siguió el camino en silencio. En cuestión de minutos, el coche se detuvo y otro hombre subió al vehículo. Se presentó como un oficial de policía, mostró su arma y folleto, tal cual había hecho el chofer. Revisó las valijas y los tres pasaportes.
-Ustedes no son aquellos que estamos buscando- gritó el conductor, frenando el auto mientras el segundo policía tiraba las mochilas por la ventana.
En cuestión de segundos, el taxi ya estaba lejos. Los dos hombres se habían llevado la plata que tenían. Marcelo, Sebastián y Benjamín decidieron volver a la oficina de la migración y buscar ayuda de algún oficial. Esta vez, fueron encaminados a un lugar aún más chico, donde esperaban cerca de veinte personas más. Eran alemanes, israelíes, otros colombianos, brasileños y franceses. Todos ellos habían sido robados de la misma manera, por agentes conductores de taxis. El personal de la policía turística repitió el mismo discurso a todos los viajeros:
-Nuestro teléfono no funciona y no podemos hacer nada. Ustedes tienen que llamar a la embajada de sus países y buscar ayuda ahí. Aquí, no hay nada que hacer más que presentar una queja.
El miedo, compañero constante durante todo el día, llevó a una revuelta y una enorme frustración. La única voluntad era salir lo más rápido de Bolivia. Benjamín, Marcelo y Sebastián caminaron hasta la terminal de la ciudad, lejos de la oficina. Allí, pidieron dinero para otros turistas, repitiendo la historia del asalto tantas veces fuera necesarias. El documento emitido por la policía de migración ayudó a demostrar que estaban diciendo la verdad y que la intención era juntar plata, comprar los pasajes hacia La Paz y tomar el primer micro que saliese de Bolivia.
- Yo nunca pedí dinero en toda mi vida, pero con la ira y la desesperación que tenía, en ese momento, lo que menos quería estar en ese país.
La solidaridad de las personas que donaron sus monedas y de los empleados de la empresa de autobuses que dieron un descuento en el precio del pasaje hizo que la estadía en Bolivia durase solo un día. En la misma noche, los tres colombianos siguieron para La Quiaca, la frontera entre Bolivia y Argentina. En la Argentina, llamarían a sus amigos y familia, y juntarían dinero para volver a Colombia. El sueño de ir al Mundial quedó sin cumplir.
Nunca se supo si los asaltantes son o no verdaderos policías, pero quien busque en relatos disponibles online, verá que no son pocas las historias idénticas a la de Benjamín, Marcelo y Sebastián en la frontera boliviana. Sin embargo, en la gran prensa internacional, no hay ningún relato de ese tipo. Cuando se escribe sobre las fronteras latinas, el foco siempre es la actuación del Estado en vigilar quien y lo que cruza la frontera, sin reflexionar sobre los métodos utilizados y sobre a falta de rigor en vigilar también a sus propios oficiales.
La frontera entre Bolivia y Argentina, el Control en La Quiaca, también es el destino de millares de viajeros todos los días y, así como Desaguadero, tiene históricos de problemas entre oficiales y turistas.
Yessid Idrobo y Caren Castro cruzaron la frontera entre Argentina y Bolivia en junio de 2014. El es periodista. Ella es socióloga. Los dos viajaron a la Argentina con la intención de especializarse. Hicieron un viaje por tierra desde Perú para conocer el Lago Titicaca y el centro de Bolivia. En la frontera, pasaron por momentos difíciles.
- Nos trataron a todos como delincuentes. Nos hicieron sacar todo de las valijas y acostar en el piso. Preguntaron hasta por qué no llevamos ropa de frío... La verdad es que los oficiales hacen todo un teatro para encontrar una forma de pedir dinero. Es mucha corrupción y estigmatización.
En la oficina, los atendió un tipo obeso, que no se levantó de la silla de madera en que estaba sentado en ningún momento de la conversación.

- No puedo darles el sello de salida de Bolivia sin saber que ustedes tienen el permiso de entrada a la Argentina. Está muy complicado entrar allá, ya que los inmigrantes han causado muchos problemas.

Caren y Yessid caminaron entonces unos metros hacia la oficina de la policía argentina y llegaron a un lugar chico, sin sillas. El oficial, vestido con pantalones y chaquetas verdes, revisó todo con tranquilidad.
- Necesito ver cuánto de dinero llevan ustedes. Me imagino que saben que no se puede entrar en la Argentina con menos de 1500 dólares cada uno...
- Nosotros no tenemos toda esa plata...
- Pero si ustedes vienen a estudiar acá, seguramente van a gastar más de 500 dólares por mes. ¿Cómo van a sobrevivir si no llevan dinero?
- Nuestra familia nos manda plata por transacción. No quisimos viajar con mucho porque puede ser peligroso. Supimos que los robos en las fronteras son comunes. Mejor no correr el riesgo.
- En este caso, necesito ver el visado de permanencia en la Argentina.
- No lo tenemos. Planeamos hacerlo cuando lleguemos allá.
- Lo siento, pero no puedo dejarlos pasar. Los quiero ayudar, pero son las reglas...Si los dejo entrar, estaré cuestionando la soberanía de la Argentina.
La solución fue, por lo tanto, dormir en la frontera y intentar la suerte en el otro día. Ni bien amaneció, la pareja ya estaba otra vez en la oficina de la migración argentina. Todavía no había cola y ya era otro oficial el encargado de las revisiones. El hombre, aún joven, inspecciona la documentación y libera la entrada, sin mayores preguntas.
Con el pasaporte debidamente sellado por la migración argentina, Yessid y Caren llegan a la oficina boliviana. Todavía es necesario obtener la firma de salida del país. El oficial no es el mismo del día anterior, aunque tenga las mismas ropas y la misma forma de hablar:
- ¿Entonces ustedes lograron el permiso para entrar en la Argentina, no? ¿Eso es porque son buenos ciudadanos o porque les pagaron mucha plata?
Sin contestar la pequeña gran ironía, Yessid y Caren siguieron viaje con una duda: ¿será que en las fronteras bolivianas las reglas cambian del día para la noche?

* Texto publicado no jornal Reporte Platense em janeiro de 2015

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Aquele abraço!

La autopista que conecta Buenos Aires con el ingreso sur de la ciudad de Rosario se llena de autos en la medida en que se acerca el CityCenter. ¿Todas esas personas decidieron ir al casino en la misma hora? Domingo de lluvia, noche ideal para hacer apuestas y probar la suerte en una de aquellas maquinitas que toman el dinero de quién insiste en creer en el suceso del próximo intento.

 – ¿Sabes por qué el lugar está tan lleno de gente?
– Todos vinieron por el show de hoy. ¡Yo también vine por eso! – Dijo la señora de sombrero largo sin esconder la ansiedad para lo que estaba por venir.

El casino más grande de Latinoamérica no es la estrella del día. Todas aquellas personas – jóvenes vistiendo camisetas de equipos de fútbol, mujeres con sus adornos y joyas finas, hombres de traje, chicas con celular en la mano para tomar la mejor foto – esperan por el show de Caetano Emanuel Vianna Telles Veloso, Caetano Veloso, el brasileño Caê.
Caetano llegó con su ropa tradicional, compañera de todas las presentaciones del show Abraçaço: una camisa gris, pantalones jeans y zapatillas negras y blancas. La sencillez de la vestimenta del cantante parece contradecir la complejidad de su voz, capaz de alcanzar los tonos más altos sin desafinar cualquier momento.
"Estoy muy feliz por estar otra vez en Rosario. Con Pedro (guitarrista) ya estuvimos aquí. Ricardo (bajo) y Marcello (batería) están por primera vez. Así que, para mí, es una alegría multiplicada". Multiplicando entonces su alegría y ritmo bahiano, Caetano volvió al palco de Rosario después de 16 años y presentó algunas de sus clásicas canciones seguidas de los nuevos hits del álbum Abraçaço. De una manera teatral, el bahiano bailó a su modo tropical y amenazó desabrochar su camisa para volver a cerrarla luego.
Mientras en el palco se mesclaban rock, samba y axé en un tipo de experimentalismo genial, tres chicos en el público exhibían camisetas de Fluminense, el equipo de fútbol de Caetano. En la otra esquina, una mujer insistía en traducir los trechos de las canciones para su novio, que escuchaba el gracioso portuñol: "Leãozinho quiere decir leoncito, que es algo parecido a un jaguar...", dijo ella entre sonrisas. Un poco más adelante, un señor se aventuraba a toda la tecnología de su teléfono, intentando sacar el flash de la cámara y para dejar de cegar a los demás con toda su luz.
En mi bolsillo izquierdo llevaba una bandera de Brasil. Estar allí, por primera vez cerca del cantante brasileño, era como estar cerca de todo el país, viendo las caras de mi gente en la poesía de Caetano Veloso. La timidez que, hasta el momento, me había impedido de sacar la bandera, se fue cuando la trayectoria de Carlos Marighella, militante muerto por los militares en la dictadura, ganó voz a través de la canción "Um comunista". Armado con su guitarra, Caetano repitió diversas veces el mensaje del activista brasileño: "una vida sin utopía, no entiendo que exista, así habla un comunista... Así habla."
Fueron una, dos, tres despedidas. Una para cada regreso de Caetano al escenario. Después de más de veinte canciones, encendieron las luces del salón y se terminó el gran abrazo a Rosario.
En la salida, la señora de sombrero caminaba más despacio que de costumbre. Encontró de vuelta a la chica que le había preguntado sobre el show y no se contuvo en decirle algo más.

– Hoy es mi cumpleaños. Soy fan de Caetano Veloso desde que el empezó su carrera hace cuarenta años. Estaba triste por no haber conseguido los ingresos para el show y, hoy, mis dos hijos fueron a mi casa y me regalaron una entrada. Hoy es mi cumpleaños. ¡El mejor que tuve en mi vida!
–¿Y que tal Caetano?
– ¡Un bombón!

Así salimos – yo, la señora de sombrero rojo, los chicos con la remera de Fluminense, la mujer traductora, el hombre que todavía no sabe usar bien su teléfono y todos que estuvieron allá – abrazados por la utopía y por el abraçaço bahiano-brasileño de Caetano Veloso. Como canta su compañero Giberto Gil, ese fue, ciertamente, "aquele abraço!".

* Texto publicado no jornal argentino "Reporte Platense" em novembro de 2014.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Retratos de Gaveta: histórias do interior de Minas


Bastidores

Retrato 1: Dona Dionísia, Piranga - Mariana 

Quinta-feira. Sol quente e céu azul. Mochila nas costas. Bloquinho e gravador nas mãos. Saí do centro histórico da cidade em direção ao bairro São Pedro, à procura de uma ruazinha escondida entre a estrada que leva até a BR e a que leva ao Hospital público. O morro é comprido, as casas não têm números, nem campainhas. As portas estão, quase todas, destrancadas. As janelas, muitas vezes cobertas de papelão ou pano, não têm trincas. Bati na porta da terceira casa, como orientou o rapaz da venda mais próxima.

– É aqui que mora a Dona Dionísia? Repeti alto para que a senhora que me recebeu pudesse ouvir.

– Não. A Dionísia mora naquela casa ali, sem pintar...

Nas outras janelas, os vizinhos se amontoavam, olhando com curiosidade a estranha visita. Subi uma pequena escada que dá para uma porta aberta. Não esperei muito, até que uma senhora com um lenço florido na cabeça apareceu com um ar desconfiado, limpando as mãos num avental branquíssimo, rasgado nas pontas.

- Dona Dionísia?
- É ‘ieu’, sim.
- Vim aqui conversar um pouco, a senhora está ocupada?
- Não estou, não, filha. Entra aqui pra dentro, pode sentar aí. É uma alegria!

E, depois de um abraço desses largos, como se fôssemos velhas conhecidas, mostrou um pequeno sofá, numa sala improvisada na entrada da casa. Sem saber ao certo o que dizer, com toda a inexperiência que trazia de brinde, perguntei sobre os gatos de estimação que dormiam por ali, contei que estava procurando boas histórias e que queria ouvir a dela.

- Tenho um filho que é poeta... Agora, ele está trabalhando como catador de papel, mas, daqui a pouco, ele chega. Eu sei histórias também, sei cantigas, mas o Zé, meu filho que é poeta, sabe umas mais bonitas que eu. Você não prefere?

Expliquei que eu queria ouvir sobre a sua infância, juventude, sobre os filhos, os amores, as alegrias...

- Então, você quer que eu fale da minha vida?
- Quero.
- Mas isso é uma alegria!

Com as mãos no rosto, sentada ao meu lado, Dona Dionísia começou a cantarolar alguns versos que repetiria muitas vezes ao longo das entrevistas-conversas e desarmou, com palavras simples e uma coreografia quase infantil, qualquer insegurança dessas que chegam em todo começo e encontro.

Três tardes de agosto. Sempre a mesma cortina improvisada com um pano vermelho cobrindo a janela. Os gatos cochilavam sobre o armário, indiferentes. Do quintal do vizinho, aquele cheiro de lenha queimada coloria, de cinza, o céu azul e a parte de trás da igreja. Entre cantigas populares e orações, relembramos 88 anos que construíram aquela senhora sentada na cadeira, com suas mãos enrugadas e olhos distantes. De tudo: – idades, pessoas, manhãs na roça, despedidas e chegadas –, o que se fez lembrar. Entre todos os muitos dias que compõem uma vida, os bonitos e grandes o bastante para caber no meu gravador de voz.  Dei voz e ouvidos.

No primeiro dia, apresentação e conversa. Conheci a casa e seus quatro cômodos. Os retratos pendurados na parede emolduram um abraço dos seus que já não existem mais. Vi panelas areadas no fogão e uma bicicleta velha, infantil, destoando do restante da casa idosa. Durante a conversa, duas crianças – os netos – ficaram sentadas no chão. O menino, mais velho, remendava o tênis com cola branca. A menina, pequena, brincava com uma escova de roupas usada. Ambos concentrados no próprio mundo, alheios a tudo que a avó contava e cantava para nós. Duas horas de conversa e a casa já tinha cheiro de lar, tão minha quanto de todos que ali moravam: muitos. Um abraço de despedida e a promessa de voltar no dia seguinte.

- Às vezes, tenho um refrigerante aqui em casa. Hoje, não. Nem café tem. Uma pena.

No dia seguinte, ao chegar à rua escondida que era a terra de Dona Dionísia, eu já sabia o que encontrar naquele presente constante: rotina certeira de um cotidiano comum. Reencontrei o meu lugar no sofá, a cortina e os retratos – hoje, sem pó –, vi Dona Dionísia com uma roupa engomada e os cabelos bem penteados debaixo do lenço de seda: tão velho quanto tudo que há ali.

- Ficou com saudade de mim, Dona Dionísia?
- Fiquei tanto que não tirei o olho da rua, pensando na hora de vocês ‘chegar’!

Abraço bom de reencontro. Perguntas em punho, gravador ligado e histórias menos alegres que a do dia anterior. A infância, agora, não era tão boa de se lembrar, nem os maridos e filhos, tão perfeitos. Agora seria hora de recordar os dias menos bonitos, as humilhações entre os sorrisos de bom dia, a fome que às vezes entrava na casinha de pau a pique. Tinha saudade. Medo, só do avião que nunca conheceu. Lembrou o sobrenome dos pais e esqueceu a própria idade. Inventou cantigas e repetiu outras tantas. Contou do dia em que conheceu seu Deus: milagroso.

Os dois meninos continuavam no chão, como antes.  Junto a eles, dois filhos, uma neta, um neto e uma nora de Dona Dionísia assistiam a minha entrevista-conversa, orgulhosos da mãe-vó-sogra e do passado que ela contava. Relembraram “causos”, descreveram os muitos lugares em que moraram, as dificuldades e as alegrias que traziam com eles. Corrigiram datas e idades, contaram mais de 20 netos e bisnetos como novos nomes da família, relembraram os que morreram e os que moram longe.

- Canta aquela, mãe, que a senhora cantava quando eu era pequeno...
Cantaram e ouviram. Como antes.
Tarde encerrada, lembranças mais teimosas em sair da gaveta, gravador desligado e bloquinho na mochila.
- ‘Fio’, corre ali e busca um refrigerante, diz que depois eu passo lá. Pede pra dividir na hora de pagar. Um só.

Indefesa ao agrado, revezei os copos com a família e bebi o refrigerante meio suco, comprado à prestação.

Terceiro e último dia: poucas perguntas, aquele checar de dados costumeiro e uma série de poses para a câmera fotográfica. Fotografei os gatos no telhado e a parede sem pintura. Uma, duas, três fotos de Dona Dionísia cantando e fazendo pose enquanto afinava a voz no “quando eu era pequenina, jogava bilboquê...”. Uma foto de família com a mãe ao centro e pronto. Trabalho feito.

 Agradeci menos do que queria, sem saber explicar ao certo o quanto estar ali havia sido bom. Mais um abraço e me levaram até a porta.

- Por que ‘cê’ escolheu ‘eu’ para contar a minha história?
- Porque a sua história é especial.
- Não ‘tô’ falando? A vida é boa demais e foi é Deus que trouxe você aqui...

Já virava a esquina e todos: Dona Dionísia, filhos, netos e bisneta, estavam ainda acenando. Quis voltar e agradecer de novo pela confiança, pela porta e coração abertos, pelo brinde nos melhores copos da casa. Agradecer por terem olhado para a rua para me esperar, pela boa vontade em compartilhar a vida, pela bondade presente entre os tijolos sem pintar que eu pude conhecer.

Ao deixar a rua escondida sob os pés de moleque que dão fama à cidade, agradeci por não ter ido em frente quando pensei em desistir de bater na porta, de subir o morro e seguir adiante. Entendi que, a cada entrevista e retrato bonito que fizer, sairei infinitamente menor: por sentir como uma formiguinha frente à grandeza das vidas anônimas que nos passam despercebidas e, sobretudo, porque, em cada lugar que passar, deixarei um pouco da minha história, que se apegará a essas gentes e vozes, presa e liberta por cada abraço que encontrar.

À noite, em casa, ouvi as gravações e transcrevi inúmeras vezes que “a vida é boa” e o “mundo é ótimo”. Ao olhar as fotos, gato preto e gato branco no telhado da casa, Dona Dionísia em preto e branco do lado de dentro, na sua cadeira perto do meu lugar no sofá. Em cor, os olhos dela ficam azulados. Na foto de família, filhos, netos, bisneta e agregados. Todos sorriem largo. Dona Dionísia, não: em nenhuma foto e em momento algum nessas tantas horas de uma conversa alegre, ela sorriu. Feliz.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Qual é a mala que te define?

Mala de mão. Mala gigante. Mochilão de viagem. De couro. De plástico. Vermelha. Com listras e com bolinhas. Há diversos tipos de malas, cada um pensado para servir a uma necessidade diferente: uma média para quem vai passar duas semanas na praia; uma grande para o universitário que leva as roupas sujas pra lavar em casa, como bem diz o ditado; uma mala enfeitada para os distraídos de plantão não perderem seus pertences na hora do desembarque; uma mala gigante para aquele que decidiu mudar de casa. Uma mala.  

Talvez um dos grandes dramas modernos – e que já possui milhões de adeptos – seja a agonia do fazer e desfazer malas. Escolher cada peça que terá o privilégio de sair do armário e conhecer outros cantos exige concentração. No entanto, essa agonia existe por algo um pouco mais essencial: as malas não carregam só roupas, sapatos, presentes. As malas carregam expectativas e, por isso, os tipos de malas dizem muito sobre quem as carrega.


Ainda me lembro da minha primeira mala. A ocasião: uma viagem com a escola e quatro dias num balneário, curtindo a agonia e a delícia de estar longe de casa pela primeira vez. A idade: 14 pouquíssimos anos. A mala: uma mochila da Company – sucesso na década de 1990 – que peguei emprestado da minha irmã mais velha. Essa mala, ou mochila, como preferirem, era descolada (na época) e representava, justamente, o começo da minha juventude.

A segunda mala tampouco era minha, assim de papel passado. Era uma mala de couro, meio brega, que o meu pai ganhou de presente de aniversário. A ocasião: um congresso de jornalismo e a primeira viagem a outro estado, sem nenhum acompanhante. A mala ainda não era minha, não tinha identidade, mas já era uma mala e não uma mochila. Tudo mais sério. Esses tais primeiros passos.

A terceira – e penúltima mala até então – é grande, esverdeada, com cadeados e rodinhas: um sucesso! A ocasião: o intercâmbio e a mudança temporária para outro país. Comprei essa tal mala num shopping, com a minha mãe me acompanhando numa quase cerimônia social que afirmava que a tal idade adulta tinha chegado de brinde. Saí com a mala da loja, ainda embrulhada num plástico, e, enquanto exibia a conquista como uma medalha, pensava na esperança que tinha (e tenho) de que ela me acompanhasse a lugares lindos.

A última mala foi comprada sem ajuda de ninguém. E não é bem uma mala, mas, sim, um mochilão daqueles enormes pra quem carrega uma vida na mochila e resolve sair por aí conhecendo sorrisos. Depois de tantas escolhas, está eleita: essa é minha mala. Informal, conservadora na sua rebeldia, alegre, com o medo escondido num bolso e a coragem tomando todo o espaço restante. Colômbia, Uruguai, Cuba... América Latina inteira. O roteiro já está definido, a mala – e a personalidade – seguem em construção.

Afinal, qual é a mala que te define?


segunda-feira, 14 de julho de 2014

Alemães, fiquem um pouquinho mais!

Durante o último mês, Santa Cruz de Cabrália, Bahia, recebeu a seleção alemã de futebol.  Os jogadores dançaram com os índios, viram novelas, falaram português, comeram farofa, gravaram vídeos, tiraram trocentas fotos e, para completar, foram embora e deixaram de presente um cheque de 10 mil euros para que a comunidade pudesse comprar uma ambulância.

Os brasileiros, por sua vez, não economizaram elogios aos alemães. Nas redes sociais, o amor pela Alemanha brotou com uma força tão grande que nem os sete gols puderam evitar. De tudo isso, o que mais chama a atenção é que o brasileiro, assustado pela atitude alemã, tenha se comovido mais com a solidariedade européia que com o fato de uma comunidade ter que contar com a boa vontade internacional para comprar sua própria ambulância.  

Se é assim, fica o pedido: alemães, fiquem um pouquinho mais! Não vão embora sem passar por Minas Gerais e conhecer as muitíssimas famílias do interior que se apertam em casas minúsculas por não terem como se mudar para outros lados. Não deixem de passar pelo nordeste e ver como é sofrer a pior seca dos últimos 50 anos com pouca ajuda do poder local. Passem por São Paulo, provem o pastelão e, de quebra, aproveitem para escutar as histórias que andam circulando nos metrôs, entre uma encoxada e outra. Voltem ao Rio de Janeiro, onde receberam a taça, e observem o quão violenta pode ser a nossa polícia.

Alemães, o Brasil tem um coração grande e possui uma desigualdade social ainda maior. Nosso Estado, que é um dos mais ricos da América Latina, não consegue enxergar que a comunidade em Santa Cruz precisa de uma ambulância ou que, em Roraima, o sul do estado anda sofrendo com uma situação quase à beira do caos.  O nosso Estado que, esse ano assistirá e participará das disputas eleitorais, se sente tão orgulhoso das boas mudanças nos últimos 12 anos que parece se esquecer que ainda há muito o que fazer para acabar com a pobreza no país.

Estamos a poucos meses das eleições. Alemães, fiquem um pouquinho mais e convençam o Podolski a sair por aí lembrando a cada cidadão o sentido de ser brasileiro. Não vão embora, alemães, até que possamos dizer “Não, muito obrigado” a qualquer presente como o cheque que vocês deixaram e que, para quem entende que nem tudo é futebol, doeu (bem) mais que os sete gols que vocês fizeram contra a nossa seleção.



quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Maria de um tal João

“É com muito prazer que lhe devo a honra de vir aqui ‘de frente’ aos meus compadres e amigos, com toda fidelidade, pra pedir a mão de sua filha em casamento para que possamos compartilhar o dia a dia.” Após seguidas semanas de ensaio, foi esse o discurso que os convidados de Maria de Fátima Gentil Soares ouviram no dia do seu noivado.  Fatinha, como é conhecida, escutou o pedido de casamento no rádio e fez com que o candidato a noivo João Bosco, o Joãozinho, repetisse as frases feitas.

Assim como a história dos personagens homônimos do conto dos “Irmãos Grimm”, o noivado de Joãozinho e Maria de Fátima foi bastante singular: ela tinha apenas doze anos e o noivo, treze. Ambos moradores de São Pedro dos Ferros, interior de Minas Gerais, Fatinha e Joãozinho começaram a namorar no dia em que se conheceram, na capelinha da cidade. “Quando ele saiu da capela e me deu um beijinho no rosto, pensei: Opa! Vamo namorar!”, relembra. A partir desse dia, Fatinha começou a juntar todo o dinheiro que ganhava vendendo abóboras para comprar o bolo do seu noivado e uma garrafa de refrigerante – foram necessários três meses pra conseguir a tal quantia.

Pela pouca idade da filha, o “Sô” Manoel e a Dona Rita não aprovaram a decisão que viria apenas seis meses depois de partido o custoso bolo do noivado: ainda com doze anos, Fatinha saiu de casa para ir morar com Joãozinho, no distrito de Furquim, a 60 km da terra natal do jovem, bem jovem, casal. Levando na mudança apenas um colchão, Fatinha e Joãozinho deram início à promessa de “compartilhar o dia a dia” que está durando até hoje, 21 anos mais tarde.

Antes de iniciar essa “loucura” de sair de casa, Fatinha, junto aos seus quatro irmãos, trabalhou, desde os três anos, na lavoura de arroz com os pais, todas as tardes, depois de frequentar as aulas na escola de São Pedro dos Ferros, a 20 km de sua casa.

Devido ao seu pavor em ter que ficar dentro da sala de aula, sem poder sair ou falar sem permissão, num tempo e lugar onde os professores usavam da força física para conseguir disciplina das crianças, Fatinha abandonou os estudos ainda na terceira série primária, atual 4º ano do Ensino Fundamental, aos nove anos. Para esconder dos pais esse abandono, a menina continuou cumprindo a mesma rotina de todos os dias: acordava às quatro horas da manhã, andava por mais de 40 minutos numa estrada de terra, de mochila nas costas, em direção à escola. No entanto, escondia os materiais em uma bueira da estrada e passava a manhã vendendo abóboras para, com o dinheiro das vendas, comprar um vestido de chitão. Demorou quase um ano para que os pais descobrissem que Fatinha não ia mais às aulas.

Contrariando a tradição da época, os pais de Fatinha pouco utilizaram de castigos físicos na educação dos filhos. Sempre que surgia alguma “levadice”, tal qual essa de não ir à escola, “Sô” Manoel e Dona Rita faziam um longo sermão, que, pela dureza e simplicidade das palavras, doíam mais que qualquer surra ou puxão de orelha.

Como em quase toda regra, há uma exceção, um dia Fatinha apanhou muito, de vara de marmelo. Para conseguir tamanha façanha, a de irritar a calma Dona Rita, Fatinha e seu irmão mais novo, Helinho, encontraram uma garrafa de aguardente que o pai, “Sô” Manoel, havia enterrado no terreiro de casa para que a bebida ficasse mais curtida, mais forte. Os irmãos, então com dez e oito anos, respectivamente, de tanto “provar” aquele estranho achado, ficaram embriagados. Ao encontrar os filhos rindo excessivamente pela casa com a garrafa nas mãos, dançando sem música e falando coisas desconexas, Dona Rita logo compreendeu o que havia acontecido. Para entender que “aquilo não era coisa de criança”, os meninos apanharam. Devido ao efeito do álcool, Fatinha não sentiu dor alguma, só entendeu o que tinha acontecido quando acordou no dia seguinte e os irmãos contaram o tragicômico episódio.

É com essa forma de educar, priorizando o diálogo em relação aos tapas e beliscões, que Fatinha e Joãozinho educam seus três filhos: Fernando, 17 anos; Amanda, 15 anos e João, o “Nenê”, 13 anos. Fernando nasceu poucos meses depois que Fatinha saiu de casa para morar com Joãozinho. Aos treze anos, ela “brincava de boneca” com um bebê de verdade. Sem ajuda dos pais, que ainda não haviam aceitado o casamento, e sem entender nada de criança, as dificuldades em criar o menino foram imensas. Para piorar a situação, Fernando foi um bebê pouco saudável, sempre estava doente por um ou outro motivo.

Em uma dessas doenças, foi receitado a Fernando um remédio em pó, que deveria ser dissolvido em água nas quantidades indicadas pelo médico. Fatinha, pela sua pouca idade e muita ingenuidade, tentou fazer o bebê tomar o remédio a seco. O menino quase morreu engasgado. Hoje, anos mais tarde, Fatinha relembra esse “sufoco” pelo qual passaram - ele, literalmente - com humor.  
            
Fatinha viveu em Furquim com Joãozinho e Fernando até o nascimento da segunda filha, Amanda, quando foi morar em uma fazenda nas redondezas de Belo Horizonte. Na fazenda, Fatinha cuidava dos filhos pequenos e, para ajudar com os gastos, trabalhava como cozinheira na sede. Foi nessa fazenda que, dois anos mais tarde, nasceu o “Nenê”, filho caçula do casal.
            
Uma vez por semana, Fatinha, acompanhada dos três filhos, ia, numa carroça, até o centro da cidade com o objetivo de comprar e vender coisas. Em quase uma hora de “viagem”, a família enfrentava os “empaques” da mula que puxava a carroça toda vez que o movimento de carros se intensificava. Fatinha não tinha vergonha nenhuma em descer da carroça e segurar pelas rédeas o animal teimoso. Afinal, “quem fez o seu patuá, que o carregue!”, brinca.
            
Passados os quatro anos nos quais viveu em Belo Horizonte, Fatinha voltou a Furquim, para a mesma casa da vida de recém-casada. E é lá que ela vive atualmente, com os três filhos e o marido.
            
Localizada na Fazenda São Geraldo (Furquim), a 110 km de Mariana, interior de Minas Gerais, a pequena casa de Fatinha está sempre com fumaça saindo da chaminé, o fogão à lenha só “descansa” à noite. Todos os dias, às 5 horas da manhã, Fatinha já está com seu café coado, pronta para sair. Levando consigo uma “marmita” para o almoço, ela trabalha cortando cana até às 18 horas, quando volta para casa e prepara o jantar.
            
Aos 33 anos, o maior divertimento de Fatinha é assistir às telenovelas durante a semana. O sossego de estar em casa, próxima aos filhos e ao marido já é motivo de felicidade e faz com que ela não tenha nenhuma vontade de morar na cidade. Num mundo em que “é difícil encontrar gente de bem”, morar na “roça” pode ser um privilégio. Fatinha não tem vontade de conhecer nenhum lugar, vê-los pela televisão já é suficiente.
            
Fazendo jus ao ditado popular “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”, Fatinha faz questão de que seus três filhos frequentem a escola regularmente. Ao contrário da mãe, hoje os meninos têm um carro que os buscam para a aula e não precisam trabalhar para ajudar nas despesas de casa. Após tantas dificuldades enfrentadas pela vida afora, Fatinha vive hoje uma vida economicamente estável e, ao se lembrar do passado, conclui que as coisas melhoraram muito.
            
Esse mesmo passado se apresenta para Fatinha como uma grande sucessão de loucuras: sair de casa ainda criança, morar próximo a uma cidade grande, deixar de estudar...
            
Apesar de classificar seus atos como “loucuras”, especificamente o casamento precoce, Fatinha não hesita em dizer, entre altas risadas, que faria tudo outra vez da mesma forma, com exceção talvez do episódio em que encontrou a garrafa de aguardente do pai. “Se saímos de casa meninos e estamos juntos até hoje é porque, no mínimo, posso falar que deu certo”, diz.
            
Certamente, o compositor brasileiro Chico Buarque não conhecia João Bosco Soares, tampouco Maria de Fátima Gentil, quando escreveu sua música titulada “Joãozinho e Maria”. No entanto, parece ser para eles que o poeta dedicou os versos: “no tempo da maldade, acho que a gente nem era nascido...”

             

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Dona Dionísia: a menina que jogava bilboquê


Foto: Jamylle Mol
Nasci em Piau, um pequeno povoado da cidade de Piranga, na Zona da Mata mineira. Meu pai, José Cantaro da Rocha, e minha mãe, Maria Mônica de Oliveira, cuidavam de mim e dos meus irmãos: Jandira, Efigênia e Geraldo. Comecei a trabalhar muito cedo: olhava menino pros outros, apanhava café, capinava arroz... Fazia um serviço bruto mesmo. Tinha muita gente em casa, então, todos tinham que trabalhar. Passei a infância só trabalhando e trabalhando. Cheguei a ir pra escola, mas não aprendi nada. Eu gostava da escola, mas não entendia as coisas. Até hoje, eu fico assim “Por que é que eu não aprendi a ler, meu Deus do céu?”. Nem meu nome eu sei escrever direito. Mas vivendo assim mesmo. Tem muitos aí que sabem ler, mas não sabem viver. Eu não sei ler, não, mas já vou levando bem a minha vida.

Minha mãe era muito boazinha, não brigava com a gente. Não deixava os filhos intrometerem no assunto dos mais velhos, não podia passar na frente da mãe nas conversas porque era muito feio. Só podia ficar escutando... A gente era muito pobre, nem roupa direito eu tinha. Quando ganhava um vestidinho novo, já ficava toda alegre e dava graças a Deus! Vivia todo mundo perto, em Piranga mesmo, cada um esparrodado em um canto. Não lembro muito de quando eu era criança porque já faz bastante tempo. Sei que era uma luta, mas valeu a pena!

Quando eu era pequenina, jogava bilboquê
O tempo foi passando e eu cresci, não sei pra quê
Saudade do colégio, eu fazia o que queria e nada me acontecia
Era tudo diferente!
Hoje, não posso fazer nada porque eu vivo no batente...
(Em meio à conversa, Dona Dionísia canta os versos)

Meu pai morreu muito novo, antes mesmo de eu me casar. Não era bravo, deixava a gente ir ao baile. Eu ia pro baile de vez em quando, e, se me ofereciam alguma bebida, eu esperava a pessoa olhar pro lado e jogava fora. Gostava um pouco de vinho só. Também gostava de carnaval e de cantar. Sempre gostei muito de cantar. Colocava um saião e ia pra rua, quando era dia de festa.

Casei aos 19 anos, com o Laurídes, que também era de Piranga. Não namorei muito, não, porque, como diz o ditado, namorar não é pecado, se tiver com amor. Namora moça solteira e, as casadas, conforme for. Casei direto mesmo. Como meu pai já tinha morrido, não precisei de autorização.
Um dia, meu marido falou: “arrumei um serviço lá em Mariana, cê vai comigo ou vai ficar aqui em Piranga?”. Não, meu fio, eu vou pra lá, uai. O que é que eu vou ficar fazendo aqui sem você? Aí, juntei tudo que eu tinha, fui pra linha esperar o trem de ferro que ligava Piranga à Mariana, despedi dos amigos e vim embora pra cá. Nessa época, eu tinha uns vinte e poucos anos. Fui morar lá no Matadouro, que é muito longe do centro da cidade.

Trabalhei em hotel e em muitos restaurantes: o de Sô Quim, o do seu Zé de Souza, o do Jovelino... Cozinhava nesses lugares e lavava roupa pros outros. Depois, comecei a tomar conta das pessoas de idade: cuidei de Dona Violeta, ali na Rua Nova, durante muitos anos, até ela morrer. Olhei a Dona Marta, Dona Inácia e Dona Ninita – que eram irmãs – Dona Ritinha do Santana, Dona Odete... Foi muita gente mesmo que eu tomei conta, graças a Deus! Cuidei de criança também, mas o povo antigo dava menos trabalho. Criança não para, os velhos ficam quietos, é só dar banho, comida e remédio na hora certa e ter paciência com eles. Os antigos não gostam muito de conversar, ficam mais calados.  Só a Dona Marta que gostava muito de falar, ela me colocava pra cantar uma música esquisita, cheia de palavra feia. Eu ficava na varanda e ela falava “Dionísia, vamos cantar aquela música?”, eu não gostava, mas cantava pra dar gosto pra ela. A vergonha era tão grande que eu ficava até meio escondida, mas ela batia tanta palma que eu falava “Ô, Dona Marta, que música bonita! Que música bonita, Dona Marta” e ela ficava toda alegre comigo.

As pessoas gostavam muito de mim porque eu era honesta. Ganhava uma roupa velha ou outro trem qualquer, mas tirar por conta própria, nunca tirei nada. Eu vou pegar uma coisa sua e não vou falar nada? Não vou, não. É errado, uai. O que é meu é meu. Ensino isso pros meus netos, falo como é que eles devem andar. “Não mexe na sacola dos outros na escola, viu?”, eu sempre falo pra eles porque é melhor prevenir.

Tive oito filhos. Dos oito, morreram a Maria, a Francisca, a Lurdes e o Zé Geraldo. Morreram de bobeira, por causa da bebida. Mas, por exemplo, se eu falo pra você “não passa aqui porque é meio perigoso”, o que é que você tem que fazer? Dar a volta, não é? Mas eles não deram, aí, quando foram se arrepender, já era tarde. Morreram de bobeira. Eu falava que bebida não presta pra nada, só prejudica o organismo, beber pra que? Faz igual ieu que não vou na ilusão de qualquer coisa. Mas não me ouviram.. Saíram de casa e morreram morando na rua.

Quando eu trabalhava, deixava os meninos na creche e buscava de noite. Era difícil a luta, mas a gente tem que passar pela vida é alegre porque tristeza acaba com a pessoa. Morava num barraco de pau a pique: já morei no Matadouro, como eu disse, no Vamos-vamos, no Morro Santana e no Rosário. Quando mudei pra essa casa onde eu agora, chovia tudo aqui dentro, dava aquela enxurrada e molhava as coisas. Morei em muitos lugares, mas o verdadeiro mesmo é esse de agora.

Eu ia trabalhando nas casas de família, ganhava roupa e mantimentos. Às vezes, nem café os meninos tinham pra ir pra escola.  Já sofri um pecado mesmo, mas nem gosto de lembrar. Já passou mesmo, ? O Laurides, meu primeiro marido, também ajudava em casa. Ele trabalhava esvaziando caminhão de entrega no supermercado. De vez em quando, ele trazia um pacote grande de comida misturada, que catava dos sacos que arrebentavam no caminhão. Tem mulher que olharia aquilo tudo: feijão, macarrão, arroz, tudo misturado, e falaria que não ia comer. Mas eu catava tudo – feijão prum lado, macarrão pro outro – lavava tudo bem direitinho e colocava pra cozinhar. E ninguém morreu por isso, nem nada. Quando ele chegava com o pacote, eu ficava com o coração humilhado, mas fazia tudo e todo mundo comia bem nesse dia.

O Laurides morreu de tristeza. Ele tinha um patrão que judiava muito dos empregados. Um dia, o Laurides me perguntou: “será que almoço primeiro e só depois lavo o açougue?”, falei pra ele almoçar primeiro. Ele almoçou e o patrão queimou o pé dele com ferro quente, desses de marcar gado. Pelo atraso, o patrão fez essa covardia. O povo chamou a polícia, acho que passou até na televisão. Ele ficou em casa, com o pé machucado, deitado na cama: “esse tanto de filho pra tratar aí e eu sem poder ajudar”... e foi entristecendo com aquilo e não aguentou, morreu de tristeza. 

Casei de novo, com o João, porque solidão não presta, não, e eu gosto de andar a vida toda alegre e cantando.

Amor é uma semente que a gente planta pra colher
No coração da gente, com a idade, vai nascer
Quem planta bem, colhe bem
Quem planta mal, colhe mal
Porque o amor é um pecado original...
(Em meio à conversa, Dona Dionísia canta os versos)


O João era vigia, fazia ronda noturna. Era muito bom pra mim, o meu véio. Um dia, eu estava tomando conta da Dona Violeta, quando voltei pra casa, não encontrei ele em lugar nenhum. “Ai meu Deus do céu! Aconteceu alguma coisa com o João”. Depois de um tempo, a minha vizinha apareceu pra falar que tinha acontecido um acidente com ele. O João ia pro serviço todo limpinho, mas, quando eu cheguei ao hospital, ele estava todo sujo de poeira da mina onde ele trabalhava fazendo a ronda. “Dois ladrão acabou comigo de noite, me empurraram pra barranceira... custei a conseguir subir, Dionísia”, ele falou, todo sujo. Pegamos um carro que apareceu por lá e fomos até à delegacia dar queixa. O João recebeu alta e veio pra casa, mas ficou meio abobado. Bater na cabeça é triste, ? E ele não aguentou e morreu. Tão bom que o João era...

Meus dois maridos eram muito bons, mas sempre tem uma tristeza pra atrapalhar. Na vida toda, sempre aparece uma coisa ruim, mas tá bom assim mesmo. A vida é muito boa, depende da pessoa saber levar ela. O povo fala muito que o mundo ruim. O mundo não ruim, não, as pessoas é que não sabem andar por cima dele, mas o mundo? O mundo é ótimo.

Quando fiquei viúva, encontrei muitas tentações: vinha à noite e passava ali perto da igreja do São Pedro, olhava pra baixo e tinha um precipício me cercando e, pra não correr o risco de nada, eu cascava pro outro lado. Tinham uns homens no caminho que eu fazia pra voltar pra casa, sempre tarde da noite, eu passava e eles diziam “ô, mulher difícil!”, sou difícil mesmo, eu respondia e continuava andando. Graças a Deus!

A vida é muito boa. Tem hora, que eu fico recordando o meu passado: pra quem não tinha nada, vivia na casa dos outros, às vezes, até aguentando desaforos, hoje, está tudo muito bom. Quem quiser, pode vir até a minha casa e vai encontrar o que comer e o que beber também. A gente vive é pros outros, não é?

Quando eu morava na casinha de pau a pique, aqui nesse bairro mesmo, ganhei um pedaço de terra. Passaram alguns dias, uma dona veio até a minha casa e me pediu um pedaço dessa terra que eu ganhei. Ela queria construir um barraco. Eu dei com o maior prazer porque é dando que se recebe. Enquanto o pessoal dela construía tudo, eu ajudava a ajeitar as coisas, a olhar os meninos e a lavar roupas. Quando o barraco dela estava prontinho, me chamou e disse que ia construir um muro com tijolos, pra eu ficar de um lado e ela, de outro. Disse, na minha frente, que, assim, uma não veria cara da outra. Quando ela me disse isso, eu senti uma dor esquisita no meu coração, mas pensei que Deus num veio no mundo só pra um. Fiquei sem graça, quietinha no meu barraco sem sair pra nada. Acordei sem graça no dia seguinte e fiquei olhando a poeira que subia com o vento, pedi pra Deus livrar todas as ilusões da minha vida, o meu coração estava triste mesmo. Nisso, brilhou uma luz no meu caminho, passou um raio parecido com um relâmpago e eu pensei “que luz é essa?”, não estava chovendo, nem nada, não passava carro, não tinha ninguém na rua. Ouvi uma voz no meu ouvido, dizendo que Deus estava comigo. Fiquei tão alegre que cantei a tarde toda. A minha casa estava caindo, eu estava viúva. Mas, mesmo assim, fiquei feliz porque Deus apareceu pra mim, porque Ele estava comigo. Não demorou muito e eu consegui fazer uma casa nova, de tijolos, que é essa em que eu moro hoje. Por isso, falar que a vida tá ruim é um pecado. Tudo tem o tempo certo: tem o tempo de colher pedra, tem o tempo de espalhar pedra, tem o tempo de rir e o tempo de chorar. Tem tempo pra tudo.

Eu sou uma pessoa muito amorosa. Se todas as pessoas fossem assim, não tinha nada de ruim nesse mundo. Não gosto de ver ninguém reclamar nada, ninguém pode sofrer perto de mim. Se eu pudesse, limparia tudo de errado que existe. Limparia tudo na hora mesmo. Às vezes, aparece alguém aqui em casa com alguma dor, eu rezo pela pessoa e ela melhora. Outro dia, apareceu uma mulher aqui que sofria de muita dor de cabeça, ela queria que eu ensinasse um chá. Ensinei que folha ela pegaria e fiquei rezando pra ela, sem ela saber. Quando chegou em casa, nem precisou do chá porque ela já estava curada! Mas isso tudo é porque tem que confiar na vida e em Deus.

Não sei quantos anos eu tenho, se é 74, ou 87. Minha filha, Elvira, olhou o documento e disse que eu tenho 88 anos. Estou pequenina ainda, não estou? Vivo trabalhando até hoje e, todos os dias, agradeço por tudo que eu tenho, porque, antes, eu não tinha nada. Sou viúva duas vezes, sim. Mas outro dia, apareceu um véio aí querendo casar comigo. Eu não sei se quero, não sei se não quero, estou assim: meio cá, meio lá. Mas a solidão não é coisa boa. Você ter alguém pra acompanhar na igreja e cuidar de você é ótimo. E, pra isso, eu sou muito boa: não deixo o véio passar fome, nem sede, não deixo andar sujo. Comigo, é tudo muito certo. Mas tem que me acompanhar na igreja, senão, como vai ser? Assim, não pode. Dois cabritos não bebem água na mesma cumbuca, não, porque o chifre é grande! Então, tem que ir comigo à igreja. Esse véio que apareceu e quer casar comigo trabalha de ronda, como o João, meu último marido que morreu. Ronda é muito perigoso. Só disso que não gostei.

Hoje, sou aposentada. Meu patrão, o filho da Dona Violeta, de quem eu tomava conta, me ajudou a pagar o INPS. Agradeço a alma dele todo dia. “Ô, Dona Dionísia, vou ajudar a senhora a pagar o INPS, viu? Porque, assim, quando a senhora sair daqui, vai ter um ganhozinho”. Obrigada, Sô Hélio, Deus abençoe o senhor e a sua família! O meu velho que morreu também deixou um cadim pra mim... e vivo assim: em pé, sem cair, deitada, sem dormir!

Ainda vou conseguir mais vitórias porque a vida é muito boa. O mundo tá muito bom, não quero morrer agora, não. Quero muita vida. Vida com saúde! Quero fazer uma área aqui em casa, mas nunca que ela sai. A gente não ter uma pessoa pra ajudar é muito ruim. Tenho meus filhos, mas eles pouco ligam pra isso. Meu filho, Marco Aurélio, trabalha em um negócio. O Zé, meu outro menino, trabalha catando papelão lá na rua. Ele mexe muito com esses ‘troços’ de poesia também, já escreveu até no jornal. A Elvira mora aqui em casa, na parte de baixo. Não sei quantos netos eu tenho, mas são muitos! Não lembro o nome deles, mas fico de olho em todos porque não gosto de ver ninguém maltratado, ninguém sofrendo. Tenho vontade de voltar pra roça, mas só se eu arrumar um véio pra ir comigo. Eu iria feliz, plantar e criar galinha. Roça é uma beleza e eu gosto muito de ‘criação’. Quem sabe ainda não vou, né? Às vezes... quem é que sabe?

Menina dos dentes claro
Parece canjica grossa
Me dá seu braço, morena
Me leva pra sua roça?
(Em meio à conversa, Dona Dionísia canta os versos)

Acordo, todos os dias, às 8h, porque já levantei muito cedo nessa vida. Hoje, não preciso mais. De vez em quando, vou ao centro da cidade, a pé mesmo. Pra voltar, venho de ônibus porque o morro é comprido, é muito longe. Aos sábados, às vezes, vou à Igreja. A igreja tira as tristezas do coração da gente, parece que o que eles leem lá foi escrito pra mim e, por isso, eu volto pra casa satisfeita. Não saio muito daqui, nunca viajei. Já fui visitar meus irmãos que moram nos asilos em Lafayete e em Ouro Branco. Eles nunca vêm me ver, só eu vou lá. E, olha bem: eles têm carro, podiam vir. Mas nunca vêm.
Meu divertimento é cantar. Eu não sei ler, como eu já contei, mas as palavras vêm assim na minha cabeça e eu canto. A cada dia, canto uma coisa nova. O tempo que cantando ou na igreja é o tempo feliz.

Por causa dessas coisas que eu canto, essas histórias e poesias, veio um rapaz aqui me gravar. Cantei um pouquinho e, quando fui ver, eu estava aparecendo na televisão. Pensa bem: ieu na televisão. “Ai, Dionísia, não tá fácil, não!”. Acho que passou e todo mundo viu, não sei. Você não chegou a me ver, não? Apareci lavando vasilhas e cantando, bem ali dentro da televisão.

Ainda lavo, passo e cozinho todos os dias. Não consigo ficar parada. Os antigos já diziam: “Deus no céu, trabalho na terra e dinheiro no bolso”. Tenho saudade dos meus irmãos e do tempo em que eu trabalhava com a enxada, apanhando café ou cortando cana. Era muita luta, mas eu cantava o tempo todo. Medo, não tenho nenhum. Só dessas pessoas que andam por aí fazendo maldade. Mas o mundo é muito bom, não tenho do que reclamar. Já estou feliz demais, só de você estar aqui. Tenho muito medo de avião também, não entro em um desses por nada porque dá medo demais, nem pra conhecer a praia, eu entro.

Se eu tinha vontade de ver o mar? Uai, eu ainda tenho!